No último congresso da ADA (American Diabetes Association), neste ano, foi apresentado um trabalho que demonstrava os benefícios de um “novo” medicamento para o diabetes, chamado Xultophy. Novo, entre aspas, porque, na verdade, ele não é exatamente algo novo no mercado...
http://diatribe.org/xultophy-beats-out-lantus-major-clinical-trial-a1c-weight-and-hypoglycemia-benefits |
O Xultophy nada mais é do que uma mistura (em quantidades certas!) de insulina Degludeca (Tresiba) e da Liraglutida, um dos agonistas de GLP-1 (Victoza). Os três produtos em questão – Xultrophy, Tresiba e Victoza – são produzidos pela NovoNordisk. Até aí, nada demais – não fosse o fato de que o Xultophy “venceu” a Lantus (insulina glargina) durante o estudo, ou seja, exibiu mais benefícios para pessoas com diabetes tipo 2 (DM2).
Para entender essa “vitória”, vamos explicar rapidamente como são feitos os estudos de novos medicamentos.
Depois que o novo medicamento é testado em cobaias – principalmente ratos – e em pessoas saudáveis, para que haja segurança – ou seja, para que saibamos que esse produto não vai causar malefícios a quem o utilize! – o medicamento pode ser testado em pessoas que têm a doença que ele trata – no caso, diabetes. Esse momento dos estudos é chamado de “Fase 3”.
Em geral, os estudos são “desenhados” com dois grupos escolhidos aleatoriamente: um grupo vai receber o tratamento experimental... E o outro, não vai. Porém, seria extremamente antiético deixar o grupo “não-experimental” (controle) sem nada. Isso poderia, entre outras coisas, piorar o quadro que estamos tentando tratar – e o estudo inteiro seria um tiro nos dois pés e nos dois joelhos.
Portanto, o grupo que não recebe o tratamento experimental vai receber, em vez disso, o melhor tratamento disponível para aquela condição. Importante saber: nem os médicos que estão tratando as pessoas, e nem as pessoas sabem se estão recebendo o tratamento experimental (novo) ou não – uma vez que saber disso poderia influenciar a pesquisa. Imagine só, você deposita suas esperanças naquele tratamento experimental, mas descobre no meio do caminho que não está recebendo a novidade... Você continuaria com o mesmo ânimo a usar o medicamento em teste? Esse é um dos motivos dos chamados “estudos de caso-controle duplo-cego randomizado”.
Então, voltando ao Xultophy, ele venceu a Lantus num estudo caso-controle duplo-cego randomizado. Esse estudo foi feito com pessoas com DM2 que usaram a Lantus como insulina basal. Enquanto a Lantus baixou a hemoglobina glicada das pessoas no estudo, em média, 1,1% (de 8,2% para 7,1%), o Xultophy baixou a hemoglobina glicada, em média, 1,8% (de 8,4% para 6,6%).
O interessante destes números é que eles demonstram a maioria dos pacientes no “mundo real”, ou seja, que não conseguiriam controlar a glicemia normalmente. Isso é bastante útil, pois evita um viés do estudo que existiria se as pessoas no estudo estivessem controladas: “se ele já estava controlado antes do estudo, pode significar que já existia disciplina e tratamento efetivos, manter uma glicada boa ‘esconderia’ o resultado”.
Como se não bastasse, o número de hipoglicemias em quem usou o Xultophy diminuiu bastante, cerca de 57%, sendo que diminuiu em 83% a incidência de episódios de hipoglicemia noturna – que são potencialmente mais perigosos para a pessoa com diabetes.
Em relação ao peso das pessoas no estudo, a Lantus – como todas as insulinas – demonstrou um pequeno ganho de peso. Em contrapartida, o Xultophy demonstrou uma perda de peso, o que é bastante benéfico para quem tem diabetes – uma vez que o ganho de peso favorece o aumento da resistência à insulina (mesmo em quem tem diabetes tipo 1!) e prejudica o controle do diabetes, além de aumentar o risco cardiovascular.
Tudo bem, mas e quais os efeitos adversos desse novo medicamento? Sabemos que todo medicamento tem algum efeito indesejado – portanto, para que seja utilizado, o médico vai pesar os prós e contras.
Bem, por ter um agonista do GLP-1 na mistura, o Xultophy causou bem mais náusea do que a Lantus, em cerca de 4% dos pacientes. É claro, 4% é um número considerável – a cada 1 milhão de pessoas usando o produto, 40 mil terão náuseas –, mas em comparação com o Victoza, usado sozinho, a incidência de náuseas foi menor.
Por que esse medicamento agiu tão bem? Bem, vamos pensar nos dois medicamentos “misturados” separadamente.
A insulina degludeca é uma insulina ultralenta, ou seja, “basal”. Ela é utilizada com o objetivo de manter a glicemia estável durante o dia, nos momentos em que não há consumo de comida. Muitas pessoas com DM2 usam insulinas basais (Lantus, Levemir ou a NPH mesmo!) para “segurar” a glicemia ao longo do dia, deixando o “restinho” de insulina do pâncreas para os momentos de refeição.
Já a liraglutida (análogo de GLP-1) é uma versão “sintética” de um hormônio produzido pelos intestinos quando comemos. Esse hormônio – chamado de Glucagon-like peptide-1, ou seja, “peptídeo similar ao glucagon do tipo 1” – age estimulando o pâncreas a produzir insulina, diminuindo a velocidade de esvaziamento do estômago no momento da refeição – portanto, a pessoa que usa esse medicamento fica com o estômago cheio por mais tempo, podendo inclusive ter náuseas e falta de apetite – e também age no cérebro, favorecendo a saciedade mais rapidamente – então, a pessoa acaba comendo menos e evitando o ganho de peso. Como se não bastasse, alguns estudos demonstraram que o GLP-1 (e portanto, suas versões sintéticas também!) aumentariam a massa de células beta no pâncreas, assim como a funcionalidade delas também seria aumentada!
Então, a ideia por trás de “misturar” os dois medicamentos é interessante. As funções de “reservar” o restante de insulina do pâncreas, e ao mesmo tempo potencializar a função das células beta, aumentando a quantidade delas no pâncreas, diminuindo a fome da pessoa e diminuindo a resistência insulínica – pela perda de peso – é algo digno de nota.
Na Europa, esse medicamento já está sendo comercializado. Porém, como a Tresiba ainda não foi aprovada pelo FDA – órgão dos Estados Unidos (EUA) que aprova medicamentos, basicamente a ANVISA de lá –, os EUA ainda vão precisar de um tempinho para ter o Xultophy nas mãos...
...ou não. A Sanofi, empresa que produz a Lantus e o Lyxumia – outro agonista de GLP-1 – já está produzindo sua versão “misturada”, chamada até o momento de “Lixlan”, e que deve chegar aos EUA bem mais rápido do que o Xultophy.
No Brasil, ainda não temos previsão da liberação destes medicamentos, mas é questão de tempo. Outros estudos sobre estes mesmos produtos também estão em andamento em pessoas com diabetes tipo 1 (DM1), que apesar de não terem o benefício por “aumento da massa/funcionalidade de células beta” – lembrando, DM1 é uma doença autoimune caracterizada pela destruição das células beta – podem se beneficiar devido ao aumento de saciedade, redução da resistência à insulina e prevenção do ganho de peso.
Forte abraço, e até a próxima!
Ronaldo J. Pineda Wieselberg
Young Leader in Diabetes - IDF
Assistente de Coordenação do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes
Monitor Acampamento ADJ-UNIFESP-NR
Acadêmico em Medicina, 4º Ano - FCMSCSP
Fonte:
diaTribe. Xultophy Beats Out Lantus in Major Clinical Trial. Disponível em: http://diatribe.org/xultophy-beats-out-lantus-major-clinical-trial-a1c-weight-and-hypoglycemia-benefits Acesso em: 6 de julho de 2015.
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