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Pâncreas Artificial, uma realidade! Como faço para ter um?


O título provocativo deve-se ao fato de o por muito tempo imaginado "Pâncreas Artificial" ter se tornado realidade, contando com mais de uma centena de usuários pelo mundo, sem contar das centanas que estão participando de estudos com diferentes modelos. Contudo, faz-se importante saber o que esperar desses equipamentos.


Quando o FDA anúnciou a aprovação do primeiro sistema híbrido de pâncreas artificial, desenvolvido pela Medtronic® em 2016, muito se comemorou, e com razão. Contudo, pouco se falou sobre as características e limitações de tal sistema. Aqueles que acompanham de perto o desenvolvimento da tecnologia em diabetes notaram que o nome e o visual do equipamento Minimed 670G® assemelha-se muito aos já lançados 630G®, nos EUA, e 640G®, na Europa, Oceania e Chile. E, realmente, não é apenas uma coincidência. Esses modelos já lançados, mas que ainda não chegaram ao Brasil, contêm recursos importantes que foram aperfeiçoados e ampliados para permitir chamar o 670G® de primeiro pâncreas artificial híbrido. O principal deles é o SmartGuard®, presente já no modelo 640G®, que considera a taxa de queda da glicemia para suspender a liberação de insulina 30 minutos antes (previsão de hipoglicemia) de se aproximar do valor programado como limite entre glicemia alvo e hipoglicemia. Além disso, esse recurso volta a liberar insulina automaticamente a partir de 30 minutos depois (até, no máximo, 2 horas depois), caso já não haja mais risco de hipoglicemia, sem que o usuário precise tomar qualquer atitude para isso.


Mas e então, quais as novidades do 670G®? As novidades começam pelo sensor, que passa a durar 7 dias (o atual dura 6) e possui sistema de redundância (dois sítios reativos, sendo que o valor da glicose só é apresentado se coincidir em ambos os sítios). Associado a isso está o novo algoritmo, que permite que, especialmente durante a noite, o sistema tome decisões sobre o aumento ou a redução da insulina basal liberada de acordo com a glicose medida pelo sensor (fase de sistema fechado). Isto é, caso seja detectada tendência de alta, o sistema passa a liberar mais insulina, a fim de evitar que seja atingido o limite de hiperglicemia; e, caso a glicose esteja baixando, a insulina liberada é reduzida ou suspensa, a fim de evitar hipoglicemia. Muito bem, mas e durante o dia? Durante o dia o sistema apresenta características semelhantes ao 640G® (fase de sistema aberto), porém aperfeiçoadas. Por isso se trata de um sistema híbrido (não totalmente fechado, como um pâncreas artificial ideal). Apesar de, especialmente durante a noite, o sistema fazer ajustes automáticos, durante o dia o sistema depende de instruções do usuário, a fim de liberar a quantidade adequada de insulina bolus para uma refeição; assim como reduzir o basal de insulina com antecedência, para a prática de atividade física, por exemplo. Portanto, nesse e em outros sistemas híbridos, as ações do usuário contando carboidratos, decidindo sobre doses, e a do profissional de saúde programando diferentes basais, fatores de sensibilidade e razões insulina/carboidrato, ainda não poderão ser aposentadas.

Com recursos que permitem menos ações do usuário, está o Pâncreas Biônico, que, ao ser iniciado, precisa apenas que o usuário informe seu peso e ajusta automaticamente a insulina basal. Apesar disso, para um ótimo controle, ainda depende que o unsuário informe alimentações (contudo, sem ter que contar carboidratos, apenas selecionando alimentação pequena, média ou grande) e atividade física. Abaixo, entrevista com o idealizador do sistema iLet®, que deve ser lançado ao pouco nos EUA em 2018.


Outras empresas também estão de olho nesse atraente negócio de rápida evolução. Entre elas está a Animas®, empresa de bombas de insulina do grupo Johnson & Johnson®, que prevê para o fim do deste ano o lançamento do sistema híbrido “Minimizador de Hipos e Hipers” (Hipoglycemia-Hyperglycemia Minimizer®). Sem contar o grupo independente Open APS, que, desde 2014, tem disponibilizado as instruções (algoritmo e lista de equipamentos necessários) para se fazer em casa um pâncreas artificial híbrido (sem garantia, mas que tem sido testado por pessoas de diferentes países, “por conta e risco”). Abaixo entrevista com Mariana Gomes, usuária do Open APS.


Para quem se interessou e já está querendo um, é bom saber que não há previsão para chegar ao Brasil, a não ser que você decida fazer o seu caseiro. O sistema 670G® tem lançamento previsto inicialmente apenas nos EUA, entre os meses de março e junho (primavera do hemisfério norte), com indicação para quem tem a partir de 14 anos de idade.  

Mais informações em:

FDA News Release. FDA approves first automated insulin delivery device for type 1 diabetes. Disponível em: www.fda.gov/NewsEvents/Newsroom/PressAnnouncements/ucm522974.htm  Acesso em 9 de Out de 2016.

JDRF. JDRF Celebrates FDA Approval of Artificial Pancreas System. Disponível em: www.jdrf.org/press-releases/jdrf-celebrates-fda-approval-of-artificial-pancreas-system/ Acesso em 9 de Out de 2016.

Medtronic. Medtronic Receives FDA Approval for World's First Hybrid Closed Loop System for People with Type 1 Diabetes. Disponível em: http://newsroom.medtronic.com/phoenix.zhtml?c=251324&p=irol-newsArticle&ID=2206594 Acesso em 9 de Out de 2016.

Tenho Diabetes Tipo 1, e Agora? Pâncreas Artificial ou Biônico. Disponível em: http://tenhodiabetestipo1eagora.blogspot.com.br/search/label/P%C3%A2ncreas%20artificial%20ou%20bi%C3%B4nico Acesso em 9 de Out de 2016.

Tilleskjor, Sara. BREAKING NEWS: FDA APPROVES THE MINIMED 670G SYSTEM, WORLD’S FIRST HYBRID CLOSED LOOP SYSTEM. Disponível em: www.medtronicdiabetes.com/blog/introducing-the-minimed-670g-system/ Acesso em 9 de Out de 2016.

Adaptado do artigo publicado originalmente em: http://www.diabetes.org.br/diabetes-em-debate/1401-primeiro-pancreas-artificial-e-aprovado-saiba-o-que-esperar

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