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Brasil em Risco de 2ª Onda COVID-19 - Pessoas com Diabetes, Hipertensão, Obesidade e +DCNTs em Maior Risco!

Há muito não escrevo neste espaço, mas a urgência do assunto me trouxe de volta a um espaço menos burocrático. Fato é, número diário de contaminados e mortos pelo novo coronavírus no Brasil tem diminuído nas últimas semana. Como consequência, espaços de maior aglomeração como cinemas têm reaberto, a população tem sido menos cuidadosa (muitos já não usam máscara) e aqueles que até então não saíram de suas casa, estão começando a sair. Fato 2, esse mesmo cenário foi observado na Europa e o resultado? Muitos países como Bélgica, Irlanda, França e Alemanha, observando uma segunda onda com maior número de casos e hospitais mais lotados que na primeira onda, estão decretando lockdown (no caso da Irlanda, já iniciado e com duração prevista de 6 semanas).

Slide de minha apresentação durante o Congresso da IAPO em 2020.

No Brasil, é fácil perceber o risco de a tendência de melhora rapidamente se inverter para uma segunda onda, com a diferença de já termos experimentado na primeira a incapacidade de o sistema de saúde dar conta de todos os casos e prevenir de forma efetiva o excesso de óbitos. Vou explicar porque digo excesso de óbitos. Desde a pandemia de SARS, no início dos anos 2000, se percebeu que pessoas com diabetes e outras doenças crônicas (DCNTs) tem uma evolução pior e maior risco de morte quanto infectadas pelo SARS (veja que a COVID-19 é provocada pelo SARS-CoV-2, portanto, vírus da mesma família que o SARS dos anos 2000). As primeiras publicações vindas da China e depois da Itália mostravam que a maior parte dos óbitos por COVID-19 eram pessoas com doenças cardiovasculares, diabetes e outras condições crônicas de saúde, além de pessoas idosas. O que o Brasil fez, então, para proteger essas pessoas? Muito pouco! Algumas declarações de que distribuiria medicamentos suficientes para 3 meses para essas pessoas, a fim de que não precisassem sair de suas casas mensalmente para ir à farmácia ou posto de saúde, atendeu menos de 23% dessa população.  

A consequência da ineficiente e descentralizada preparação e resposta do governo brasileiro à COVID-19 incentivou um outro estudos que publicamos, indicando que os diferentes estados não protegeram adequadamente as pessoas com diabetes nesse período. Como resultado, mais da metade das pessoas com diabetes tiveram piora de glicemia (aumento ou maior variabilidade) e mais de 38% tiveram que cancelar ou adiar seus atendimentos e exames. Com isso, fica clara a migração de toda essa população para um grupo com risco de morte ainda mais alto (diferentes pesquisas apontaram hiperglicemia e maior variabilidade como fatores preditores de pior prognóstico em caso de infecção por COVID-19), além de, a médio e longo prazo, uma população com risco de complicações crônicas muito aumentado.

Para encerrar, vou apresentar dados do Ministério da Saúde, que identificam que entre os mortos por COVID-19, mais de 64% tinham uma comorbidade (no gráfico abaixo fica claro que em sua maioria, condições crônicas, especialmente diabetes e doenças cardiovasculares). Contudo, se observarmos os dados italianos, verificamos que, na realidade mais de 90% das mortes foram pessoas com condições crônicas de saúde (veja acima a queda no número de mortes sem contar essas pessoas). Estariam talvez esses dados do Brasil subestimados devido à grande proporção de pessoas que têm diabetes, hipertensão e não foram diagnosticadas, ou que têm obesidade e, erroneamente, não foi computada como comorbidade?

Não parece que novas ações para proteger essas populações com diabetes e outras DCNTs tenham sido implementadas e que agora sim essas pessoas podem ficar mais tranquilas. Muito pelo contrário, a maioria das mortes por COVID-19 continua associada a esses grupos. Salvo alguns estados e municípios que conseguiram se organizar melhor, como a Bahia, através dos serviços à distância do CEDEBA e do telerrastreio em Vitória da Conquista, a maioria das pessoas com diabetes continua tendo que se arriscar indo ao posto ou farmácia buscar seus medicamentos mensalmente e sem acesso a teleconsultas e exames point-of-care (entidades como a ADJ Diabetes Brasil abriram serviços gratuitos de teleatendimento durante esse período para quem não consegue acesso à sua equipe de saúde). 

Portanto, o recado para a população e, especialmente para quem tem diabetes e outras DCNTs é: não descuide agora! Continue usando máscara, saindo de casa somente quando necessário, sem parar seu tratamento e mantendo sua glicemia, pressão arterial e outros parâmetros dentro do recomendado. E para os tomadores de decisão: não esperem a 2ª onda! Está mais do que na hora de implementar de verdade as medidas anunciadas no início da pandemia, assim como ampliar as estratégias para proteger os grupos de maior risco (ao invés disso, infelizmente temos acompanhado decisões que reafirmam ou aumentam burocracia para acesso a medicamentos). 

Por Mark Barone, PhD

Referências

Figura 29, publicada no Boletim Epidemiológico coronavírus - N34, site: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2020/October/08/Boletim-epidemiologico-COVID-34.pdf

Barone MTU, Harnik SB, de Luca PV, Lima BLS, Wieselberg RJP, Ngongo B, Pedrosa HC, Pimazoni-Netto A, Franco DR, Marinho de Souza MF, Malta DC, Giampaoli V. The impact of COVID-19 on people with diabetes in Brazil. Diabetes Res Clin Pract. 2020 Aug;166:108304. doi: 10.1016/j.diabres.2020.108304.

Sleep-wake cycle impairment adding on the risk for COVID-19 severity in people with diabetes Barone MTU, Ngongo B, Menna-Barreto L. Sleep-wake cycle impairment adding on the risk for COVID-19 severity in people with diabetes. Sleep Sci.0;0(0):1-4

Ugliara Barone MT, Harnik SB, Chaluppe M, Vieira de Luca P, Ngongo B, Pedrosa HC, Pirolo V, Franco DR, Malta DC, Giampaoli V. Decentralized COVID-19 measures in Brazil were ineffective to protect people with diabetes. Diabetes Metab Syndr. 2020 Oct 7;14(6):1973-1978. doi: 10.1016/j.dsx.2020.10.005.

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