Meus 9 anos de Diabetes entre o Diagnóstico e a Bomba de Insulina

Larissa Rodrigues


Aos 11 anos de idade fui diagnosticada com diabetes tipo 1. Hoje, aos 20, dou inicio à uma novo tratamento: Bomba de Infusão de Insulina. Durante esses nove anos de diabetes, sendo quatro deles como Jovem Líder em diabetes pela ADJ (ADJ Diabetes Brasil), pude viver diversas experiências: conheci dezenas de pessoas com a mesma condição, de todas as idades, cidades, estados e até países diferentes, cada um com seu tipo de tratamento. Juntos e em diversos momentos compartilhamos opiniões, medos, angustias, curiosidades e novidades e é por esse motivo que decidi escrever sobre essa nova etapa em minha vida.


De maneira geral, o diabetes é caracterizado pela elevação da glicose no sangue. As causas disso especificam o tipo. No meu caso, o corpo parou de produzir insulina, sendo assim, Diabetes Tipo 1, fazendo-se necessário o uso contínuo de insulina (um dos hormônios regulador da glicose no sangue).

Diabetes não tem cura, mas tem controle (e muitas possibilidades de terapia!). Ele requer da pessoa responsabilidade, dedicação, adaptação e paciência! A partir do diagnóstico ficamos responsáveis por fazermos o papel do nosso pâncreas, com o acompanhamento principalmente do endocrinologista.

Nesses anos de diabetes, mudei meu tratamento algumas vezes. Até então, usando seringas ou canetas de insulina. Em 2014 minha endocrinologista sugeriu que eu colocasse a bomba de insulina. Fiz então o Test-Drive por 1 mês, com uma das principais empresas do mercado, para poder vivenciar o dia a dia com a bomba. Na época, com 16 anos, apesar de ter gostado da experiência, não me sentia madura o suficiente para “encarar” com tanta segurança o novo tratamento. Dentre tantos pontos que levantei - positivos e negativos - minha maior queixa era ter preso ao meu corpo um aparelho 24h por dia.

No “mundo do diabetes” muitos ainda encaram a bomba como um “luxo”. Fazendo uma analogia simples, é como se a bomba, dentre tantos tratamentos que existem, fosse visto como um “smartphone de última geração” (aquele que todo mundo acha incrível e sonha em ter). Há outros que a veem quase como um indicador de “status”. Mesmo, muitas vezes, tendo um bom controle e qualidade de vida com outro tipo de terapia. Entretanto, vamos analisar: graças ao avanço da medicina aliada à tecnologia, o tratamento do diabetes vem melhorando e se modernizando a cada ano, sempre tentando aumentar a qualidade de vida dos que vivem com a condição. Mas, dizer que a bomba de insulina é hoje o melhor tratamento que existe no mercado, é um tanto quanto relativo. O mais tecnológico, eu concordo. O melhor tratamento é aquele que o seu organismo aceita, que você se adapta e que as suas metas sejam atingidas para um melhor controle. Existem muitas pessoas que utilizam seringas/canetas para aplicação, se adaptam e têm um bom controle, assim como existem aquelas que, mesmo com a bomba, ainda não atingiram seus objetivos. Muitos fatores contribuem para uma maior estabilidade glicêmica e para nos auxiliar a identificá-los e ajustá-los é fundamental o acompanhamento do/a endocrinologista e do/a nutricionista, aliado à prática de atividades físicas.

Diabetes é uma condição dinâmica. Sua glicemia nunca “é 120”. Sua glicemia “está 120” (em 15 minutos já pode estar 80 mg/dl, menos ou muito mais). Talvez um dos maiores desafios do diabetes não sejam os diversos “furinhos” no dedo para verificar a glicose ou as diárias injeções de insulina. O maior desafio é entender, daqui de fora, o que tá acontecendo lá dentro, com o nosso corpo. Tentar imitar essa gigantesca máquina que é nosso corpo não é tarefa fácil e muitas vezes nos intriga. O objetivo? Tentar chegar o mais próximo do funcionamento do organismo.

Para auxiliar a solucionar esse mistério fisiológico, muitas vezes a bomba é uma ótima opção: maior aproximação ao perfil de liberação de insulina do pâncreas. Para mim isso tem permitido um controle muito maior sobre minha glicemia, mas quanto ao conforto, é relativo. Tudo depende do que cada um considera conforto. Eliminar as 4-6 injeções diárias de insulina parece muito vantajoso. Em contrapartida, terei preso ao meu corpo um aparelho ligado à um fio que levará a insulina até um cateter conectado ao tecido subcutâneo. Para quem está em dúvida, colocar na balança prós e contras é a melhor forma de decidir.

No meu caso, há um ano fiz essa opção. Minha médica, apesar de sempre respeitar minhas decisões e tentar promover o melhor controle com a terapia seguida até então, tentou me convencer, desde quando começou a me atender, a colocar a bomba. Ela sim, acreditava que eu teria mais qualidade de vida e conforto. Mas, isso nunca foi o que mais “pesou na balança” para mim. Por mais que mudássemos o tratamento, mudássemos a insulina, a terapia, a nossa meta glicêmica nunca foi atingida nesses 9 anos de diabetes. 

Em 2016, aos 19 anos, comecei o processo pra obter minha bomba através do governo do estado de São Paulo. Por tantos motivos e burocracias, esse processo demorou um ano. Finalmente recebi o telegrama dizendo que eu poderia retirar meus insumos, por direito. Durante esse um ano (2016-2017), o foco foi conseguir ter o melhor controle até que chegasse a bomba e, assim, iniciássemos uma nova etapa. Há um pouco mais de dois meses, voltei ao acompanhamento com nutricionista. Talvez por desânimo e insatisfação com as glicemias e os resultados do tratamento, havia deixado de lado um dos pilares fundamentais ao controle do diabetes: alimentação balanceada. Precisei da minha nutricionista para lembrar o quanto uma alimentação saudável faz diferença no meu controle e o erro que foi ter ignorado essa parte do tratamento. Nos últimos dois meses, aliei o tratamento com insulina a uma boa alimentação e ao terceiro pilar do controle do diabetes (que eu também havia deixado de lado), a atividade física. Apesar de não ter atingido o melhor controle, a diferença nos gráficos e na média glicêmica foi significante! Mas eu já estava praticamente “escrava” do diabetes, já não tinha tanta qualidade de vida.

É importante dizer que a mudança de tratamento/terapia não está associada a um agravamento do diabetes. Meu diabetes não ficou mais grave. A alteração foi simplesmente por eu, juntamente com minha médica, não estar conseguindo “imitar meu pâncreas” com o antigo tratamento.

No dia 23 de outubro de 2017 instalei a bomba. Estava ansiosa e feliz, mas ainda com medo. É uma nova fase, como no início, como no diagnóstico. Atualmente ainda preferiria estar utilizando as canetas de aplicação pelo simples fato de não querer ter algo preso a mim. Mas entre o que eu considerava “conforto” e qualidade de vida, eu escolhi um melhor controle, para ter mais qualidade de vida a curto, médio e longo prazo. E, da mesma forma que aos 11 anos, quando eu me adaptei a conviver com tantas injeções diárias de insulina, aos 20 eu me adaptarei com a bomba fazendo parte de mim

Larissa Rodrigues
Jovem Líder em Diabetes pela ADJ Diabetes Brasil
Líder do Acampamento ADJ-UNIFESP-NR
Prestando Vestibular para o Curso da Medicina

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